terça-feira, 21 de dezembro de 2010
O QUE A PROMOÇÃO DE SAUDE TEM A VER COM O CONTROLE DA VIOLENCIA?
Antigamente, por volta dos anos 50, aprendi, nas aulas de geografia, que uma ilha era um pedaço de terra cercado de água por todos os lados.
Depois a definição mudou mas isso não importa agora; não quero falar de geografia mas de violência.
Nessa linha, sinto-me (e creio que muitos também) uma ilha, ou seja, um pedaço de ser humano (ou do ser humano,genérico) cercado de violência por todos os lados.
Como o mar, a violência que nos cerca é também multiforme,movediça, flutuante, traiçoeira, inesperada, liquida, como diria Bauman
Na televisão, esta notória fábrica de violência, não estamos cercados apenas de imagens e sons da violência como conteúdo mas também por imagens e sons violentos: uma propaganda de automóvel ou de aparelhos de televisão, diferentemente de um programa onde se mata e esfaqueia a vontade, não apresenta, em si, um conteúdo de violência mas as imagens e os sons desta propaganda agridem porque seu volume é brutalmente aumentado em relação ao que se via ou escutava imediatamente antes, e também porque as cores são violentas, os cortes de imagem são violentos, os anunciadores berram, ouve-se muita percussão violenta, etc.
O transito, nem falar, um campo de batalha: carros destroçados, motoboys espalhados no asfalto, sirenes urrando, motoristas se insultando, buzinas soando.
Mesmo o humor é violento: os humoristas destroem suas vítimas, ridicularizando-as, insultando suas imagens corporais, seu amor próprio, suas performances.
Pais agridem filhos, filhos agridem pais, homens batem em suas mulheres, corintianos cobrem palmeirenses de porrada e vice versa.
A violência é tão omnipresente que não é nada fácil defini-la nem cercá-la conceitualmente. Por exemplo, que nome daríamos para o seu contrário? Em português a única possibilidade é “não violência” (“paz” não é o contrário de violência mas de “guerra”) o que indica que mesmo na sua ausência ela não sai de cena.
Violencia, no fundo, todos sabemos o que é porque a sentimos a todo instante mas não é fácil defini-la.
Arriscaria dizer que ela tem a ver com a irrupção rápida e súbita de algo, com um som que agride os tímpanos ou que assusta; também é claro com imagens em flash e, naturalmente, com dilaceração, destruição de corpos, mentes, coisas da cultura e da natureza. Também com tudo de mal que se faz ao “outro” como exclusão, isolamento, expulsão, diminuição, exílio.
O que tudo isso tem em comum são sujeitos humanos; porque não considero que a natureza e os bichos não humanos sejam violentos porque isso nos inocentaria já que se poderia então dizer que a violência é natural e, consequentemente, inevitável, o que não é verdade (porque se fosse estaríamos todos perdidos).
A violência portanto é de responsabilidade humana o que quer dizer que poderíamos, perfeitamente, não ser violentos, não praticar violência.
Promoção de saúde é pois, também, promoção da não violência.
O que, com certeza, é um enorme desafio porque, vale reconhecer, nascemos com o germe da violência em nós, porque crianças deixadas totalmente livres e sem controle (ou seja sem cultura) tem grande chance de se tornarem violentas.
Porisso, num certo sentido, violência não combina com liberdade e também liberdade, num certo sentido,não é um valor defensável.
Porisso também, controle, num certo sentido, é um valor defensável.
Porisso, promover a não violência implica em controlar a violência humana em reprimi-la (o que não seria uma violência).
Utopia?
No começo era o verbo (ou a história)
No começo era o verbo ou seja, a história
Em todos os domínios da experiência humana, sejam eles ficcionais ou não ficcionais, quando uma mensagem está sendo transmitida quase sempre uma história está sendo contada.
E, para que as mensagens façam sentido para os receptores, estes precisam identificar de que historia, de um rol de tipos de história bem conhecidas, se trata: todos costumamos reagir diante de um fato novo pensando mais ou menos assim: “isto (o fato novo) parece (ou é, com certeza) um caso de...”
Algo faz ou não sentido (ou faz mais ou menos sentido) para alguém na medida em que esta pessoa identifica ou deixa de identificar na mensagem, subjacente às informações que estão sendo passadas, uma estrutura narrativa conhecida organizando tal fluxo de informações.
E esta estrutura é sempre composta por códigos relativos tanto a formas quanto a conteúdos narrativos
Esta vem sendo, desde sempre, a nossa forma de nos situarmos no mundo: para viver é preciso conhecer e conhecer é re-conhecer, ou seja, ser capaz, a partir de uma estrutura narrativa adquirida ao longo de um processo de formação, ancorar toda informação aparente ou superficialmente nova numa estrutura profunda conhecida que, aplicada à informação, confere-lhe sentido.
Mudança?
A pergunta que pode ser coloca é: hoje, isto está mudando?
Antes, no entanto, de buscar responder a esta questão é preciso clarear o questionamento, justamente para não buscar a resposta num lugar indevido.
Não se trata de uma “crise de paradigmas”; não se trata de saber se os códigos interpretantes mudaram, se os antigos se esgotaram e não são mais válidos, devendo ser substituídos por outros.
Quanto a isso parece claro para todos que, com a queda do muro de Berlin; com o fim do emprego fixo; com o advento da web, do terrorismo high-tech, etc, estamos em plena crise de paradigmas.
O que se trata de saber é se a sociedade da informação mexe com própria relação de subordinação entre (qualquer) informação e (qualquer) estrutura.
Ou, em outros termos, se a tal sociedade da informação nos coloca numa situação de incerteza radical (como sugere Bauman(1)) onde conhecer não é mais o equivalente de re-conhecer já que as coisas, a todo momento, são ou parecem ser tão novas que o reconhecimento delas não é mais possível exigindo, por parte dos indivíduos, inclusive para a gestão do próprio cotidiano, uma atitude e disposição permanente para o uso da informação tendo em vista o conhecimento de um mundo sempre novo?
Em termos de sentimento experimentado parece, de fato, que hoje, quando você acha que acaba de aprender algo a aprendizagem já não serve mais.
É claro, a imensa maioria das pessoas, na imensa maioria das vezes, ainda comporta-se como re-conhecedora já que sem este comportamento a vida cotidiana, numa larga medida, seria inviável; mas o que inquieta e exige atenção é saber se de fato existe atualmente, em marcha ou em gestação, um tal processo de substituição permanente e, mais ainda, se se trata de um processo irreversível.
Trata-se então de saber se a insegurança permanente tende a se tornar a lei maior das sociedades pos modernas, que acabará presidindo todas as outras leis; se a sociedade de consumo - onde, como assinala Bauman (op. cit) o consumo e não mais a produção é o elemento central definidor, que vai tomando conta de todos os espaços sociais, exigindo a presença permanente de novos objetos a serem consumidos em substituição aos antigos – acabará tomando o lugar da “assimilação/acomodação” piagetiana como mecanismo básico de formação e uso do conhecimento, dando lugar à simples substituição permanente do conhecido pelo desconhecido, do antigo pelo novo, num ritmo crescente que diminui cada vez mais o espaço entre o que está e o que não está mais “na moda”, entre o que “entrou” e o que “saiu de linha”, entre o que é “in” e o que é “out”.
Ou justamente, ao contrário: o mar de informações característico da pos modernidade geraria, como mecanismo de defesa, como barreira ideológica e psicológica contra o caos do mundo, um enrijecimento das estruturas de assimilação/acomodação?
Referências
Bauman, Z. O mal estar da pos-modernidade. Rio de Janeiro, Zahar, 2007
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Denunciando a denúncia
Fernando Lefevre
Ana Maria Cavalcanti Lefevre
Hoje, mais que nunca, neste nosso momento eleitoral (outubro de 2010), parece fundamental discutir o ato denunciante e a sua relação comunicacional que envolve emissores e receptores de denúncias.
Trata-se de submeter a denuncia a um exame mais detalhado que pode orientar-nos no terreno pantanoso da ação política submetida a influencia das mídias.
Nesse sentido, podemos avançar a idéia que a fala denunciante, tão típica do discurso midiático, pode ser adequadamente entendida usando-se o conceito de representaçao social.
Imaginemos uma denuncia qualquer. Ela em geral tem a forma: “ ele (o político, o ministro, o funcionário de alto escalão, o filho do ministro, etc.) está sendo acusado de ter cometido um delito (desviado dinheiro, ajudado amigos, favorecido parentes, etc.). Segundo depoimento de fulano de tal (secretaria, chofer, etc.) houve um encontro no dia tal...Telefonemas gravados secretamete revelam que, etc”.
Segue-se:
“...o (ministro, político, funcionário) em nota oficial desmente a acusação dizendo que está sendo vítima de uma campanha difamatória movida por seus inimigos, que está sendo perseguido pela mídia, etc.”
O fato denunciado fica assim tão “natural” que parece brotar do nada, e este efeito é conseguido pela reiteração de representações sociais fortemente ancoradas na cultura (do tipo: políticos roubam, funcionários traficam, candidatos mentem, etc.) que, por este mecanismo, fazem desaparecer o próprio ato instituinte da denúncia e a responsabilidade do sujeito denunciante.
Ou seja, como a representação social dominante coloca, a todo momento, que “políticos roubam, funcionários traficam, etc.” então o simples anúncio de uma suspeita de desvio equivale à descoberta de um desvio: o anúncio da suspeita cria o objeto da suspeita.
Fica claro então que a denúncia, para produzir o efeito desejado é inserida na temporalidade (imediata) e no contexto da comunicação, ou seja, no momento e no terreno das representações sociais; o que implica que fica retirada do espaço jurídico, que deveria ser seu leito natural.
Não importa pois, pela via jurídica, averiguar se a denuncia é ou não verdadeira porque a sua “verdade” já está assegurada via reiteração da representação social.
Além disso, pelo menos entre nós, a própria ordem jurídica está submetida à tirania da representação social na medida em que é entendida como ineficiente e ineficaz porque necessariamente dilatada no tempo e, portanto, incompatível com as exigências imediatistas da modernidade e, ademais (vista como) sujeita a toda sorte de manipulações e recursos, vistos (pelo senso comum) como manobras protelatórias e artificiais destinadas, no fundo, a impedir a emergência da culpa (já previamente estabelecida).
Some-se a este processo de instituição da realidade recursos tecnológicos como câmeras ocultas, gravadores embutidos, etc. que revela a presença da representação analógica ou “motivada” da realidade escondendo-se como representação para aparecer como espelho do real, escamoteando a evidencia de que fatos são sempre coisas fabricadas (ainda que com dados de realidade).
Em suma, a denúncia, implicitamente, “purifica”, inocenta e cobre de glória os dois sujeitos, a instância denunciante e o leitor a quem está destinada a denúncia (bem como a relação de parceria entre ambos, aquela que se revela quando o jornal se anuncia de “rabo preso com o leitor”) colocando-os, na qualidade de participantes do meta-discurso-sobre a realidade, fora do discurso-da- realidade como demiurgos da verdade moral e espectadores do “mundo mau”.
E, paradoxalmente, a denúncia deste “jogo comunicacional” é visto pela instancia denunciante e pelos que nela acreditam piamente, como um atentado à liberdade e à democracia.
A denuncia, no quadro da comunicação num contexto de discurso politico não é, pois, entre nós brasileiros, uma verdadeira denúncia mas um uso político da denúncia. E este uso tem grande chance de produzir o resultado desejado, ou seja, condenar (antes de julgar) os envolvidos na denuncia, na medida em que se ancora numa representação social preexistente.
Temos pois uma espécie de silogismo do tipo:
Premissa básica (representação social): todo funcionário público desvia recursos, faz tráfico de influencia,etc.
Premissa adicional: No governo em tela este é mais um caso de uma serie de outros fatos denunciados que ademais são batizados como “escândalos”
Fato (escândalo) denunciado: ocorreram, no Ministerio x, alguns eventos que indicam um possivel caso de trafico de influencia da parte de funcionarios e/ou parentes de funcionarios.
Logo: trata-se de (mais um) escândalo e encaminhá-la como denuncia para um exame no plano jurídico em nada altera a sua natureza de escandalo constatado.
Uma das importantes funções das representações sociais é pois a de permitir que a probalidade do fato o tranforme de fato num fato real.
Aconteceu, mesmo, alguma coisa? Pouco importa. No campo da politica o que menos importa é investigar a verdade.
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
A QUESTÃO DOS MODELOS E A CIRURGIA PLASTICA
Fernando Lefevre
2010
Parto do principio que refletir sobre modelos no mundo contemporaneo poderá nos ajudar a entender boom da cirurgia plastica entre nós brasileiros na atualidade.
Nós todos somos humanos, portanto imperfeitos. Os seres/ modelo não, são perfeitos (não porque de fato sejam seres perfeitos mas porque são virtuais, intocáveis).
Os modelos também são seres desejáveis, invejáveis; queremos ser como eles. Isto porque eles são compatíveis com ausencia de separação entre fantasia e realidade que caracteriza nossa primeira infancia, geradora de um desejo primário de plenitude e felicidade total que vai nos acompanhar pelo resto da vida.
E porque vivemos num mundo onde tudo é consumo, não só podemos mas nos é dito a todo instante: “sejam como os modelos (isso é possível!!) comprando as roupas que usam, os carros que vendem, as casas onde moram, os lugares onde vão,as roupas que usam, os regimes que fazem, as revistas onde eles estão, os seus corpos-via cirurgias plásticas”.
Mas se você observar as pessoas na rua, no metrô, numa sala de cinema, numa cidade como São Paulo por exemplo, fica espantado como a grande maioria delas são feias, gordas, imperfeitas, mal vestidas, desarmônicas, etc.
E provavelmente estas pessoas também são tristes, deprimidas, frustradas.
O mundo é feio, e não porque tudo seja efetivamente feio (há até pessoas bonitas, bem vestidas, bem feitas na rua) mas porque não é um modelo, não é virtual.
A você é dito a todo momento para comprar um modelo, um pedaço de modelo e você acaba comprando na expectativa completamente fantasiosa de virar um modelo mesmo sabendo perfeitamente que você é concreto, feito de carne e osso e que portanto nunca vai virar um modelo.
Você cresceu, não é mais uma criança e portanto deveria ter deixado o mundo da fantasia mas a sociedade de consumo te puxa para lá, para trás, fazendo, pela via do consumo, você voltar a se sentir e querer sentir como uma criança.
Voce é, portanto, um ser cindido, aquele que se sabe humano vivendo ao mesmo tempo a fantasia amarga do ser modelo e,com isso, o sentimento de uma perpétua frustração.
Por outro lado, deixar de viver correndo atrás do modelo fantasioso, em vez de representar postura realista implica em sentimento insuportável de derrota, de morte, em abandono da energia vital, daquela força que nos impulsiona para frente, para a vida.
E para que nunca abandonemos a luta (que eles chamam de nossos sonhos), uma mesma historinha mal intencionada é nos vendida em todo canto e nesta historia se conta que ele ou ela, que virou um ícone, um modelo era, contudo, antes de ser modelo, um ser desprezível e anônimo como você.
Portanto, o modelo é uma fantasia virtual mas feita com matéria prima de carne e osso o que quer dizer que seus e nossos sonhos poderão um dia virar realidade e, portanto, todos virarmos um modelo.
E, mais ainda, neste conto de fadas mercadológico, a ciencia e a tecnologia se integram organicamente, virando parte do universo da fantasia, deixando de ser instrumentos da dúvida, do questionamento e do avanço do conhecimento humano para funcionar como uma varinha de condão que pode transformar sonhos em realidade.
O cartão de crédito e a prestação, ou seja, a separação entre os recursos financeiros efetivamente disponíveis pelos individuos e a sua capacidade de comprar o objeto desejado, fazem o resto viabilizando o acesso generalizado ao mercado de consumo vendedor dos sonhos.
domingo, 4 de julho de 2010
Se você, cidadão do mundo atual (vivendo em qualquer cidade grande urbano industrializada em 2010) não fizer nada de especifico, se apenas se limitar a existir e se reproduzir no dia a dia, nunca será um ser saudável (e, ao contrário, provavelmente será vitima de alguma enfermidade e, também provavelmente, morrerá).
Para ser saudável é preciso,pois, sempre, em qualquer circunstancia, fazer algo.Portanto ninguém é saudável: fica-se saudável. Portanto, a saúde, em si, também não existe (pelo menos como o ar, a chuva, a noite existem).
Que “algo” é este que necessita ser feito?
Quem necessita fazer algo?
Se o sujeito do fazer for o indivíduo o algo a ser feito será ou um comportamento ou um ato de consumo, ainda que as duas coisas estejam muito ligadas entre si (visto que o próprio ato de consumo é também um comportamento).
Mas podemos e devemos distinguir um comportamento como, por exemplo, um indivíduo parar de fumar do ato de tomar um analgésico para se livrar de uma dor de cabeça, podendo o primeiro ser um comportamento no sentido de ato espontâneo da vontade e o segundo, sempre, um ato induzido por ou, mais precisamente, devido a existência de um ente externo.
O sujeito da saúde pode também ser coletivo na forma de:
• Um grupo (uma família por exemplo);
• Uma coletividade (os cidadãos participativos da zona leste do município de São Paulo, por exemplo);
• Uma classe social (os empresários, os trabalhadores, por exemplo)
• Uma corporação profissional (os proprietários dos moinhos de trigo, por exemplo)
• Um ente público (o Ministério da Saúde, o Estado in abstrato, por exemplo).
Da mesma forma que os indivíduos, os sujeitos coletivos também podem se comportar ou consumir. O Ministério da Saúde pode se comportar, por exemplo, emitindo um nota sobre a epidemia de gripe suína ou comprar de uma empresa de propaganda uma campanha contra a AIDS para o carnaval de 2011 no Brasil.
Enfocando questão de um ângulo mais geral podemos dizer que as sociedades atuais transformaram-se e estão se transformando em gigantescos sistemas produtivos, de sorte que a própria definição de sociedade acaba se confundindo com a de sistema produtivo. Viver em sociedade, como assinala Bauman equivale cada vez mais a viver em sociedades de consumo onde tudo é produzido para ser consumido, e onde os indivíduos são obrigados a produzir para poder consumir e a consumir para poder viver.
Em tais sociedades a saúde tende cada vez mais a ser um produto a ser adquirido e, portanto a existir naturalmente cada vez menos enquanto a doença, inversamente, tende cada vez mais a existir, naturalmente.Para que a saúde consiga se transformar cada vez mais num produto é preciso que, no plano simbólico responsável pelo processo de naturalização, ela passe a existir cada vez menos e a doença cada vez mais.
Tudo isso, portanto, nada tem de natural, constituindo construções históricas naturalizantes necessárias para que o produtivismo galopante encontre justificativa (ou seja pareça provir da “ordem natural das coisas”) no plano simbólico.
A conseqüência disso é que nas sociedades em questão, as oportunidades para a doença ou mais precisamente para o homem adoecer tendem a se multiplicar exponencialmente em quantidade e qualidade o que faz com que o próprio conceito de doença tenda cada vez mais a perder especificidade, passando a equivaler a tudo o que, ainda que remotamente, possa ofender um modelo constantemente criado e recriado de corpo/mente ou de funcionamento corporal/mental.
Neste processo de expansão, à saúde concebida como negação primária de um estado de equilíbrio devida à presença da doença e conseguida por meio do consumo de algum produto saudável acrescente-se o que chamamos de “mais saúde” ou seja a saúde obtida não a partir de uma doença a ser negada mas a partir de um “estado zero” de saúde ao qual possa-se somar “mais saúde” tendendo saúde, neste caso, a se aproximar da idéia de “performance”, sendo esta uma das razões do sucesso crescente do esporte como oportunidade para a produção e reprodução, no plano material e simbólico, da idéia de performance.
Fazendo parte deste processo crescente de diluição da idéia de saúde, a associação de saúde com beleza de modo a que as duas coisas tendam a não mais se distinguir torna-se cada vez mais clara e visível.
Na contramão de todo este processo, a saúde (e as demais áreas assim chamadas “sociais” – como se alguma área não fosse social - como a educação, a alimentação, o trabalho, o transporte) é vista entre nós, no quadro do ordenamento jurídico formal, como um direito de cidadania.
A pergunta que fica e que é preciso ser feita é: neste quadro, completamente irreversível, de mercantilização generalizada, qual o sentido de “saúde como direito”?
Saúde como direito (do cidadão e dever do Estado, segundo a constituição brasileira) equivale dizer que todos (os brasileiros) tem direito a obter saúde independentemente da sua capacidade individual de comprá-la no mercado?
Ou quer dizer que a capacidade individual de comprar saúde num país como o nosso com as suas desigualdades estruturais e históricas de distribuição de renda, deve ser remediada e compensada por meio dos serviços públicos e (ditos) gratuitos de saúde custeados pela conjunto da sociedade via impostos, para os que não podem paga-la diretamente?
O modo como a mídia brasileira representa os equipamentos e os serviços públicos de saúde e os próprias representações sociais sobre tais serviços por parte da população usuária parecem indicar que a saúde ( e os demais serviços ditos sociais) vistos como direito apresentam, entre nós, pouca chance de constituir um ilha de cidadania num mar de mercantilização.
Saúde vista como um direito, entre nós, adquire a forma de resto simbólico do “Estado do Bem Estar” na medida em que aparece, inquestionavelmente, como um bem de consumo indispensável mas, enquanto tal, inacessível para uma parcela ponderável da população, ainda excluída ou mal incluída no mercado de consumo.
terça-feira, 1 de junho de 2010
Hoje, no quadro de uma sociedade de consumo onde impera o Indivíduo Consumidor, parece tarefa quase impossível imaginar a saúde e a doença fora do(s) corpo (s)do(s) individuo(s).
Doenças parecem inseparáveis de doentes. Elas são generalizadamente vistas como disfunções dos corpos ou das mentes humanas; a saúde, por sua vez, é entendida como o restabelecimento possível das funções afetadas, sendo que o espaço corpóreo mental é concebido como único palco onde todo o drama da saúde doença acontece.
Os corpos/mentes são vistos segundo o modelo do castelo medieval. Porisso preservar a segurança (saúde) do castelo implica seja em expulsar dele toda a sujeira, a impureza, a deslealdade, enfim a doença – o equivalente da cura - seja em impedir, por meio de toda sorte de anteparos – o equivalente da prevenção – que o Mal atinja o castelo.
Fora do “castelo” não há mais saúde/doença, apenas o ambiente ou meio ambiente, potencialmente hostil, a ser controlado e vigiado para que não ameace a segurança do castelo.
Na realidade, para entender e enfrentar adequadamente a doença e encontrar a saúde é preciso fugir do modelo do castelo.
Fugindo deste modelo vamos ter que entender que, para a saude/doença, não deve existir o “dentro” e o “fora” do corpo/mente: tudo está “dentro”; ademais que o homem não está no meio ambiente mas é parte integrante deste.
Se pensarmos na Aids, por exemplo, não estaríamos jogando nossas culpas individuais e coletivas nas “costas” do virus, buscando bombardeá-lo com todos nossos canhões (tecnologia) para expulsá-lo de nossos “castelos” e impedir que, de fora, eles nos voltem a ameaçar ?
Nossos corpos e mentes quando adoecidos são, muito mais do que se imagina, vítimas de nós mesmos, de nossas escolhas como individuos e coletividades e não dos bichos, da poluição, do stress, do destino, do acaso e das demais “externalidades” que inventamos para nos desresponsabilizar.
A (verdadeira) Promoção da Saúde consiste então na dolorosa questão e na corajosa resposta para pergunta: o que existe em nós que gera doença?
sábado, 10 de abril de 2010
ATENDER, PREVENIR E PROMOVER:TRÊS MODOS BASICOS DE ENFRENTAR A DOENÇA
Não entrando, por enquanto, no mérito do que vem a ser doença, há, basicamente três modos de enfrentar a doença, individual ou coletiva: assistência à doença, prevenção da doença e promoção da saúde.
Muito sinteticamente, assistir ou atender à doença implica atacar uma doença instalada buscando remove-la, no todo ou em parte, dos corpos/mentes individuais ou coletivos.
Já prevenir a doença implica a criação de vários tipos de barreiras que impedem que a doença atinja os corpos e mentes individuais ou coletivas.
Promover a saúde, por sua vez,implica enfrentar as doenças atacando-as em si mesmas, ou seja, fora dos corpos e mentes individuais e coletivas, nas suas causas mais básicas que estão na raiz de seu surgimento.
Fica claro então, entre outras coisas, que a assistência ou o atendimento e a prevenção não geram saúde na medida em que apenas afastam a doença dos corpos e mentes individuais e coletivas, a doença em si mesma não sendo atingida.
Importantes conseqüências derivam desta constatação:
1. O atendimento e a prevenção tem como objeto os doentes; a promoção tem como objeto as doenças;
2. Doenças são coisas que acontecem nos corpos e nas mentes humanas mas que são geradas fora deles, mesmo no caso das assim chamadas doenças genéticas (ainda que aí haja campo para polêmica).
Sobram disso, entre outras, as seguintes perguntas, que deixo para a reflexão dos leitores:
· Porque, no mundo atual, os doentes são largamente privilegiados em detrimentos das doenças?
· Que conseqüências podemos tirar do fato de que as doenças, na medida em que são majoritariamente enfrentadas pela assistência e prevenção, continuam existindo no mundo e no meio ambiente?
Volto ao tema em outros blogs mas, por enquanto, o leitor encontra uma reflexão sobre o tema, entre outros, em nosso livro Promoção da Saúde como Negação da Negação (encontrável em www.livrariaresposta.com.br)